As opiniões deste blog não representam, necessariamente, o conjunto dos pastores batistas: homens ou mulheres.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

"O feminismo não deveria existir"

Slam Tawane Theodoro (2017)



Há algum tempo percebo, assim como muitos outros observadores do espírito do nosso tempo, a crescente ojeriza de uma gama variada da sociedade (nas categorias de classe, raça, gênero, idade, confissão religiosa, etc) em lidar com as questões que envolvem os feminismos e, inclusive, uma dificuldade em usar a palavra para se autodenominar ou referenciar o outro.

É como se "de repente" não fizesse mais nenhum sentido, inclusive histórico, para ainda lidarmos com a linguagem e o conteúdo dos feminismos. Uma outra palavra conquistou os corações e mentes, através das mídias sociais, como uma palavra-resumo e, ao mesmo tempo, uma palavra-intimidadora daqueles e daquelas que ainda gritam, vivem e pensam o mundo através desta pauta de gênero: a neopalavra MIMIMI.

Penso, ainda, que quem primeiro pensou neste neologismo acertou em cheio na descoberta de uma forma sintética de engavetar uma revolução em curso. Não precisou de hinos, nem decretos, nem nenhuma outra coisa que caracteriza as ações reacionárias, porque a submissão feminina é algo tão profundo, tão capilar, tão epidérmico que não é preciso muita elaboração discursiva para novamente cooptar corações e mentes em direção à negação da violenta distorção entre os sexos/gêneros da humanidade.

Então, a fé em Jesus de Nazaré e a teologia que organiza meu raciocínio concordam com essa linda menina e faz eco a sua poesia-denúncia. Muitas agendas me interessam e me mobilizam vorazmente, mas esta que sofro no meu corpo de mulher é, sem dúvida, a que mais está presente na minha vida e vocação.

A já secular reflexão sobre gênero admite atualmente muitas atualizações e revisões. A mais recente são os estudos Queer, por exemplo, mas existem ainda outras formas de abordar a questão dos gêneros. Esta reflexão, no entanto, cantada no meio da praça urbana de nossa cidade, no alvorecer do século XXI, ainda é a base incômoda de tudo.

Se pensarmos pela via da luta milenar contra a exploração/opressão de um indivíduo sobre o outro, ou de um sistema sócio-político-cultural-religioso-econômico sobre uma pessoa ou categoria social, as mulheres são as mais milenares oprimidas da história humana. Logo, explicito meu incômodo que vem se gestando há algum tempo na relação com meus muitos e queridos companheiros e companheiras de caminhada.

Por que estamos sendo abandonadas nesta discussão? Por que não percebemos que esta é uma discussão central e comunitária, já que as relações entre homens e mulheres nos espaços do privado e do público não são suspensas enquanto nos calamos ou tememos os rótulos ou ridicularizamos esta luta em particular.

Há uma certa celebração intelectual daqueles que podem promover uma "novidade" teórica ou de categorias de análise. É claro que o movimento da história nos interpela com outras formas de ser e estar no mundo e é preciso respostas que nos livrem de uma experiência atônita diante dele, mas; repito, mas, na questão das relações entre homens e mulheres no ambiente da experiência social judaico-cristã, nos movemos muito pouco. 

Testemunho uma série de histórias dos outros e minhas cuja intersecção é a de que muitas vezes não importa quanto de conhecimento alguém tem, nem as bandeiras solidárias que abraça, nem mesmo o discurso dialogal que tenha, suas relações amorosas ou com outras mulheres na condição de amigos, pais, irmãos de sangue e de comunidade de fé, têm a marca lodosa das diferenças biopolíticas de gênero.

Sinto, então, pelos colegas, teólogos e teólogas, pastores e pastoras que ainda celebram as vozes, em geral masculinas, que discutem questões de pertença, identidade evangélica, polarizações ideológicas; ou que estão festejando, nesse momento, de forma reativa, as questões da estreita relação entre fé e política, da presença/ausência dos corpos negros, dos pobres, dos cis, dos trans, como questões contemporâneas importantes e fundantes. Elas são, em certa medida. Mas, ao mesmo tempo, têm colocado no gueto ou da superação epistemológica ou da saturação reflexiva ou, ainda, de uma indisposição inconfessada ao tema, esta questão de base nas relações milenares entre homens e mulheres.

Esta violenta realidade literal e simbólica que a pactuação dos discursos (agora neoliberais) do patriarcado, do capitalismo e do conservadorismo engendram, fagocitam até os que se dizem progressistas.
Carxs, a "revolução" feminina em curso não se estabeleceu plenamente, então, não podemos superá-la.

Penso, inclusive, que quando isso acontecer, outros modelos relacionais, outras formas de convivência urbana, outras relações midiáticas, outras relações com o Capital, outras formas mais colaborativas de vivência no mundo poderão ser possíveis.


O Brasil, em particular, por conta do número assustador (e incompleto) de denúncias de violência de gênero e feminicídios, inclusive entre os evangélicos, solicita uma pastoral e uma teologia que ouça meninas como essa, mulheres como eu, brancas ou negras, pobres ou ricas, escolarizadas ou não, históricas ou neopentecostais, cristãs ou candonblecistas, de casa ou da rua, da vida ou da igreja, que vivem, com os dois pés no peito ou em silêncio, diariamente, a dúvida de ser para o outro uma coisa/propriedade ou um sujeito de forma substantiva.

E que também possa acrescer adjetivos e locuções adjetivas fundamentais para a noção de humanidade : sujeito de direitos, sujeito de si mesmo, sujeito de seus corpos, sujeitos políticos, sujeitos religiosos, sujeitos amorosos e todas as outras possibilidades de ser desejadas.

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